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Por Silvia Sperling, http://estilo.br.msn.com/tempodemulher

Autismo: um filho, um sonho, uma luta

Silvia, mãe de um menino de sete anos, conta as venturas e desventuras de criar uma criança linda, porém um pouco diferente.


Autismo: um filho, um sonho, uma luta / Acervo Pessoal

Autismo: um filho, um sonho, uma luta / Acervo Pessoal

O início e a descoberta

Em 2003 realizei o sonho de grande parte das mulheres, tive um filho. Otávio nasceu em outubro, eu com 26 anos e cheia de expectativas para com minha nova rotina. Imaginava dias vagarosos, tomando chimarrão com minha mãe, passeando no sol com meu filhote, curtindo esta fase anunciada como mágica... Mas Otávio era inquieto. Nasceu lindo, logo ficou bem gordinho e sem nenhuma constatação de doença. Queria sempre ser balançado, fosse no colo ou no carrinho. Era impossível sentar no sofá em casa ou em um banco na praça, pois ele chorava, queria movimento.

O tempo foi passando e notamos que ele não fazia algumas coisas comuns às crianças de sua idade: não se interessava por outras crianças, não brincava com carrinhos e bola, era muito agitado, não atendia quando chamado pelo seu nome e apresentava atraso de linguagem, assim como não apontava para o que queria.

Assim, quando Otávio tinha dois anos e meio, meu marido, que é médico, constatou o diagnóstico: autismo. Naquele dia choramos muito e vi meu sonho ruir. Meu lindo menino, tão perfeito fisicamente, estaria fadado a isolar-se em seu mundinho, sem compartilhar as alegrias e tristezas que a vida nos oferece. Passado o tormento da noite, fui à manhã seguinte procurar uma escola infantil, para que ele pudesse conviver com outras crianças de sua idade, auxiliando-o na busca de novas aquisições sociais e cognitivas.

Os progressos e dificuldades

Hoje Otávio tem sete anos. É alegre, carinhoso e companheiro, adora passear, tem paladar exigente, adora comida árabe, assiste à televisão ao meu lado e possui uma agenda cheia. Frequenta uma escola regular e pratica ginástica olímpica e natação. Qual a diferença dele para as demais crianças?

Otávio ainda não fala frases compreensíveis, emite muitos sons, sílabas e dissílabos, às vezes algumas palavras. Acena afirmativamente ou negativamente em algumas ocasiões, quando questionado se quer ou não algo. Precisa de auxílio para as atividades diárias como escovar os dentes, escolher a roupa, se vestir, tomar banho, ir ao banheiro e se alimentar. Já está acompanhando os trabalhos em sala de aula, permanecendo sentado em grupo por bons períodos. Adora a escola, as professoras e seus colegas, expressando o que sente à sua maneira. É extremamente afetivo e seduz a todos com seu jeitinho único. Conquista as pessoas quase sempre de imediato, com seu rosto lindo, sorriso inocente e o afeto que transborda em suas atitudes.

Otávio reconhece a diferença entre ele e as demais crianças, o que às vezes o deixa nervoso, exibindo estereotipias motoras e recusando-se a cumprir as atividades propostas. Somente há pouco tempo executa tarefas gráficas, mas com auxílio e em ambientes estruturados. Não aceita fazer o tema em casa e não gosta que apresentem seus trabalhos para mim e meu marido, muito menos que discutam sua história na sua presença: evoluções e limitações.

Especial, eu?

Meu filho é uma caixinha de surpresas, que desperta sentimentos ambíguos em mim: frustração e admiração. Ser mãe de uma criança especial me faz ouvir algumas vezes as seguintes frases: "Você é especial" ou "Somente pessoas especiais recebem esta missão". Sei que as intenções são carinhosas, mas essas palavras de "estímulo" sempre me causam desconforto, pois eu bem sei que nunca me preparei para esta tarefa, e ainda hoje não me sinto preparada.

Me pego muitas vezes impaciente e irritada com o trabalho que um filho com necessidades especiais requer. Os dias são agitados e a atenção é constante. Mesmo em locais fechados há as escadas rolantes, as portas de elevadores, tudo que a maioria das mães vê como ameaça por apenas uns dois anos. Para mim esta cautela já dura sete anos e não há prazo para acabar.

As noites insones são corriqueiras e quando há a felicidade de um sono ininterrupto de oito horas, durmo em estado de vigília, como se a qualquer momento o sonho vá acabar. Que ser especial sou eu? Sou somente uma mãe tentando fazer o meu melhor, proporcionando as vivências necessárias ao desenvolvimento de meu menino, e retribuindo o amor que ele se esforça tanto para expressar.

Desejos e a alegria da realidade

Às vezes sonho que ele não tem autismo. O mesmo garoto lindo, carismático e exigente, porém pedindo presentes, avisando sobre festinhas de colegas, convidando amigos para brincar, contando histórias de seu dia e outras imaginadas, perguntando sobre o mundo que o cerca. No entanto, me alegro quando vejo as pequenas descobertas e aquisições do meu garotinho, a execução de uma solicitação como alcançar os tênis, fechá-los, acender uma luz, abrir uma porta, tirar a roupa, dar um beijo. Coisas tão simples, mas que para uma mãe e um pai de uma criança autista são presentes que despertam a esperança de um futuro promissor.

Estímulo sempre!

Até onde ele vai chegar não sabemos, mas escolhemos a forma mais saudável, a da inclusão social, que requer enfrentamento diário de obstáculos, o convívio com crianças normais em uma escola regular, a descoberta de aptidões através do exercício físico e o estímulo cognitivo e emocional através de pessoas qualificadas e apaixonadas pela educação da criança especial.

Não existe uma fórmula de sucesso para o prognóstico favorável de crianças com autismo, mas acredito que existe um caminho de esperança: o da dedicação e do amor, ingredientes indispensáveis para o desenvolvimento pleno de qualquer indivíduo.

Silvia Sperling, mãe de Otávio, autista. Casada com Ubirajara. Nutricionista, colaboradora de publicações que tratam do tema Autismo e autora do blog "Autismo, uma vida em poucas palavras", onde compartilha suas experiências: www.autismo-umavidaempoucaspalavras.blogspot.com

21Comentários
2/mar/2012 23:12
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Ao ler o depoimento desta mãe lembrei de vários Otávios que passaram por mim nas escolas por onde andei são três décadas dedicadas a eles e emociona-me como se ainda fosse a primeira leitura,a primeira experiencia ,a primeira criança a olhar nos meus olhos por alguns minutos e apertar a minha mão talvez para em um futuro próximo dizer OI TIA Jô.........te amo.
1/abr/2012 21:03
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Tenho um filho "Especial",nao porque ele é surdo-mudo e tem autismo.mas pelo coraçao maravilhoso que ele tem,é meu melhor amigo,companheiro .no  inicio foi dificil aceitar,mas foi este filho que Deus me deu,que eu esperei 9 meses...eu  fiz ,e sempre farei o melhor por ele sem me importar com nada e ninguem .

12/mar/2012 18:38
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Sou mãe de um menininho lindo de 7 anos tb. Hj, vi como sou impaciente e mal humorada no trato com ele. Meu Lucas tem hiperatividade, defict de atenção e transtorno opositor.

Foi muito dificil pra gente entender que ele não agia daquele modo insuportável por falta de educação ou ausência da nossa parte, como muitas vezes ouvimos de meus sogros.

Mais difícil ainda está sendo agora que ele tem q aprender a ler e escrever e está muito atrasado em relação aos coleguinhas, devido estarmos tratando destes distúrbios somente agora, após um ano de terapia e muitos exames.

Parabéns pela sua perseverança, dedicação e amor! Você me levou às lágrimas hj e me deu uma linda lição de como devemos agir no dia-a-dia com nossos pequenos tesouros!

OBRIGADA!

 

 

13/mar/2012 12:40
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Hoje me vejo como a Silvia, com meu filho o Benjamin, ele tb é autista e faz 7 anos no dia 12 de junho, no dia dos namorados... meu filho é muito querido, mas pra mim tem sido difícil efrentar a vida de mãe de uma criança especial, pois na minha cidade não temos recursos qualificados para esse tipo de criança com esse transtorno... mas com a graça de Deus e do meu infinito e bondoso Mestre, tenho fé e esperança que no futuro meu filho vem ter uma vida normal ou o mais próximo do normal possível... Graças a Deus ele é uma criança muito carinhosa e já se comunica um pouco com a gente, ele já tem algum entendimento...não é fácil, as vezes perdemos a paciência por pequenas besteiras,  no decorrer do dia a dia a gente vai se estressando...busco forças em Deus pra que ele me dê cada dia mais paciência pra lidar com o meu querido Benjamin..tenho fé que vou conseguir...

Força mães de crianças autista, todas nós venceremos uma dia...

abraço a todas....Smile

13/mar/2012 23:43
14/mar/2012 10:43
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Não imagino como seja ter um fio com autismo. Mas lendo sua matéria fiquei muito emocionada. Deve ser uma tarefa muito dificil, e as vezes solitara! Mas lendo esta materia sinto, q vc é um exemplo de mãe. Exemplo de dedicação! Parabens!Estrela
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Ola Solvia meus Parabens pela mae que vc é,
Sou tetraplegico e meu sonho é ser pai um dia , mas tenho medo de ter um filho com alguma deficiencia.
Mas mesmo assim nunca desistirei , e se eu for pai mesmo que meu filho tenha alguma deficiencia, vou amalo do mesmo geito.

Que Deus te de saude e seu filho é lindo.
7/mai/2012 12:13
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ola silvia tive tres filhos e meu caçula e´´ autista agora ele tem 15 anos, nao e´´ facil a luta diaria ,exige de nos muita paciencia e perseverança pra lidar nao so com eles mas com as pessoas q se dizem normais.E u ja passei por muitos preconceitos, muitas dificuldades e muitas decpeçoesm.Mas ao olhar pro meu menininho embora um adolescente, e ver seu sorriso pra mim, seu progresso diante de anos de tratamento ,issso me fortalece e me incentiva a nunca desistir e ao mesmo tempo a gente valoriza pequenas coisas mas q sao importantissimas, e q sao maravilhosas boa sorte pra vc e pra sua joia rara q vcs possam ser muito felizes
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Conheça o grupo yahoo, autismo, lá trocamos experiências e conhecimentos sobre autismo, um grande e valioso aprendizado...

Lucilene Pedagoga, mãe do Luiz autista.

9/mai/2012 22:05
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Me emocionei com este texto!
Sílvia Sperling, ser mãe é uma dádiva de Deus! Ele te deu Otávio assim como ele é para que tu cuides com o carinho e o amor que tens dedicado a esta criaturinha, que é parte de ti e do teu marido!
Que Jesus te cubra de graças e a toda a tua família!
Parabéns, ter um filho é ter Jesus sempre acreditando que daremos conta desses cuidados!Um abraço fraterno e fique em paz!!!

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